Jogos de FPS diminuem seu cérebro? Não é bem assim!

Por Tatiane Pimenta

Muito se tem falado sobre um estudo lançado em julho/agosto feito pelos autores Gregory West e Veronique Bohbot e outros, acerca de problemas cerebrais causados por jogos em 1ª e 3ª pessoa. Após ler algumas matérias superficiais e sensacionalistas, eu resolvi obter e ler o estudo original publicado para entender melhor isso tudo.

Logo no abstract (que é o resumo do artigo), os pesquisadores esclarecem que se trata de um experimento de treinamento randomizado longitudinal subsequente, e que: "Estes resultados mostram que videogames podem ser benéficos ou maléficos ao sistema do hipocampo dependendo da estratéga de navegação que a pessoa aplicar e o tipo de jogo" - tradução livre.

Os autores também alegam terem feito o primeiro estudo longitudinal a provar a perda de massa cinzenta no hipocampo. Gregory, Veronique e sua equipe haviam partido da hipótese de que usários da parte espacial teriam crescimento no hipocampo e os que faziam uso da parte de reação perdiam massa cinzenta do mesmo.

O estudo inicia mencionando outros inúmeros artigos a favor e contra videogames e prossegue pontuando muitos destes jogos, aumentando sim as habilidades cognitivas e de aprendizado. É então que eles vão afunilando a pesquisa, informando ao leitor cada vez mais sobre as funções dos principais focos do estudo: o hipocampo (responsável pela navegação espacial, memória de episódios e regulação do stress) e do núcleo caudado ou caudal (responsável pela formação de hábitos e memória procedural), apresentando a relação inversa entre eles, que pode causar redução de massa cinzenta em um ou em outro, dependendo do excesso de uso de cada um.

Esta perda implica no surgimento de doenças neuro-psiquiátricas. O ideal é balancear o uso! O conjunto de pessoas que estiveram na pesquisa, foram recrutadas em uma universidade pública e separadas entre jogadores assíduos que jogavam cerca de 6h por semana no mínimo e pessoas que não jogavam. A lista abreviada dos jogos que os gamers jogavam contém jogos como: Fallout 3, Borderlands 2, Counter Stryker, Call of Duty (em 1ª pessoa) e GTA 5, Tomb Raider (2012) e Gears of War (3ª pessoa).

A plataforma de jogo utilizada para o estudo consistia em um sistema de labirinto radial situado em um ambiente enriquecido de imagens e detalhes. O jogo e objetivos requeriam memória espacial para voltar aos locais já visitados pelos jogadores mais de uma vez para recuperar objetos e, algumas vezes, ir à partes que estavam inacessíveis antes e precisavam de fatores do ambiente para se lembrarem disto. Tomografias e vários outros exames foram feitos antes, durante e depois dos jogos para acompanhar os efeitos no cérebro dos jogadores, podendo assim provar os efeitos de diminuição e aumento da massa cinzenta nos 2 grupos.

Ao todo, para o estudo, foram 90 horas de jogo acompanhadas e 3 estudos feitos simultaneamente, observando diferentes detalhes. Os pesquisadores acreditam que este seja o primeiro estudo a mostrar os impactos positivos e negativos dos videogames no cérebro, oferecendo uma conciliação para a literatura pré-existente.

Uma das maiores surpresas contudo, foi o contraste entre as pessoas que jogavam Super Mario Bros. pois apresentaram aumento na massa cinzenta, tendo ambos os estímulos espacial e de reação/resposta. O que foi perdido no hipocampo de alguns jogadores com jogos em 1ª pessoa, foi recuperado em grande parte com os jogos de Super Mario.

Por fim, a equipe sugeriu que os mapinhas que ficam na tela para auxiliar os jogadores a se moverem fossem removidos, porque notoriamente quem está jogando acaba navegando pelos espaços mais focado no mapa e reage a ele, mais do que reage ao espaço ao redor. Completam ainda a conclusão dizendo que cientistas e a indústria de games devem se juntar para criar jogos cada vez mais benéficos e que ajudem o cérebro.

Referência do estudo:
West GL, Konishi K, Diarra M, et al. Impact of video games on plasticity of the hippocampus. Mol Psychiatry, 2017. Epub.

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