Resenha: Zé do Caixão – Maldito, a Biografia, DarkSide® Books

ze-do-caixao-maldito-darkside-books-livro-caveira-05 ajustado Creio que a forma mais direta e resumida de descrever a biografia de de Zé do Caixão é: maravilhosamente bom de se ler. Saiba mais sobre a vida de um dos mais inovadores e criativos diretores do Brasil.

André Barcinski e Ivan Finotti, autores do livro, trouxeram à tona um personagem genuinamente brasileiro e extraordinário, assim como o homem que o criou. Zé do Caixão é considerado cult atualmente, tão lendário e mitológico quanto nosso Saci Pererê; os muito jovens podem não conhecê-lo bem, mas com apenas alguns cliques qualquer um deles pode descobrí-lo e se fascinar com ele. Os autores nos levam por toda a existência de Zé, de antes de nascer até os dias atuais e nos fazem pensar o que uma pessoa é capaz de fazer por um sonho quando sabe que nasceu para realizá-lo.

Zé do Caixão é obra de José Mojica Marins, filho de espanhóis que vieram para o Brasil na esperança de uma vida melhor. Os Mojica e os Marins se alocaram no bairro do Brás em São Paulo e seus destinos acabaram se cruzando quando Antonio Marins e Carmen Mojica se casaram. Eles trabalhavam muito e tinham uma casa humilde até que a sorte melhorou para eles, quando a oportunidade de Antonio trabalhar em uma grande chácara fez com que todos, incluindo a Dona Conceição - avó de José, se mudassem para lá e vivessem dias melhores em uma casa ampla com espaço de sobra, pomar, horta e muito verde. Algum tempo depois, Carmen daria a tão esperada notícia: estava grávida! Às quatro da manhã de 13 de março de 1936 (uma sexta-feira 13), nascia José Mojica Marins.

Em 1938 as circunstâncias levaram os pais de José se mudarem da chácara maravilhosa para um cinema, o Cine Santo Estevão, onde morariam na parte superior e onde o Sr. Antonio trabalharia gerenciando o local. Festeiros e sociáveis, os Mojica ficaram conhecidos no bairro novo e o fato de que o pai gerenciava um cinema permitiu ao Zé ter acesso à vários filmes, que ele via de forma voraz e que o fizeram ter gosto por esse mundo, de forma similar ao que aconteceu com Quentin Tarantino que se auto educou em cinema vendo centenas de milhares de filmes. Além do gosto pelo cinema, também havia o amor pelos quadrinhos e desde cedo o menino gastava seu dinheirinho com várias revistinhas, tornando-se um colecionador fiel.

bnz90mddbbvn8514xevdb8zc0 Simplesmente José

Não demoraria muito até que José infernizasse o pai para ganhar uma câmera e com apenas 12 anos de idade (!) ele começou seus primeiros filmes, sendo que o primeiro deles ganharia o título de Juízo Final, rodado em 1949. Aos 13 ele passou a fazer experimentos com a câmera para melhorar efeitos e criar técnicas para obter o resultado desejado: uma vez, utilizando cartolina para tampar um lado da câmera, ele conseguiu fazer duas cenas distintas para um mesmo fotograma, sendo que muitos diretores já com muita experiência não sabiam que isso era possível.

Embora fosse talentoso como diretor, Zé não sabia escrever roteiros, quando muito esboçava algo, mas era mais do tipo que vai falando para os atores o que eles tem que fazer e improvisa as falas. Com o pretexto de que queria trabalhar, deixou a escola cedo, mas na verdade ele queria mesmo era fazer seus filmes o que o privou de ter mais conhecimento acadêmico e o fez ter um português sofrível (fato com o qual teria que lidar pelo resto da vida).

Quando começou em sua carreira, Zé fazia filmes mais comerciais e "para a família" como A Sina do Aventureiro de 1958 e outros mais amargos como Meu Destino em Tuas Mãos, que foi tão família que foi muito mal nas bilheterias. A esta altura ele havia fundado uma escola de atuação e cinema, que o ajudaria por muitos anos de diversas formas (principalmente arrecadando fundos com alunos para várias produções) e após ser atormentado pela própria gana de fazer cinema, em uma certa noite José teve um pesadelo terrível em que um homem todo de preto o pegava e o arrastava em um cemitério, por fim, a figura o jogava em uma cova onde havia uma lápide com o nome completo dele, ano de nascimento e o ano de morte obscurecido. Acordou gritando e apavorando a então esposa, Rosita, mas longe de estar apavorado: ele estava fascinado! Ele queria retransmitir aquele pavor medonho que sentira, ele queria que aquele personagem vestido de preto aterrorizasse outras almas, ele daria vida àquilo, daria vida à Zé do Caixão.

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Mojica como Zé do Caixão

Começava então a odisséia de Zé para dar vida ao personagem o que não seria fácil, porque ninguém havia feito cinema de terror no Brasil até aquela época e ser pioneiro de filmes deste gênero em um país como o Brasil na década de 1960 não seria uma tarefa das mais fáceis. E não foi. José vendeu tudo o que tinha, colocou a esposa para morar com os pais dela e foi com a cara e a coragem fazer seu filme (coisa que ele faria muitas vezes na vida) e então fez seu primeiro grande filme de terror À Meia Noite Levarei Sua Alma, que fala de um coveiro que tem a obsessão de encontrar a mulher perfeita e ter um filho com ela, para isso ele mata a própria esposa, estupra a noiva do amigo e mata este último, sendo que ao final os mortos voltam para se vingar. O filme foi um tremendo sucesso apesar de vários críticos reclamarem da violência e de outros aspectos como a parte técnica sofrível - para os críticos - e o fato de tudo ser muito pobrezinho, mas o importante agora era a fama e toda a notoriedade que Mojica ganharia com o filme.

O mais interessante é ver como José não só não deixava o baixo orçamento desanimá-lo, como isto o deixava mais autêntico e inventivo, criando técnicas de filmagem totalmente fora da curva e que impressionavam os que viam a coisa toda ao vivo e depois a mesma finalizada na tela. O que mais gostei foi da forma honesta com que André e Ivan falam de todos estes aspectos da vida de José: que ele era genial, esforçado, lutava pelo que queria, era bom amigo e bom pai; mas também que era mulherengo, beberão, desorganizado e muito simplório.

Dói muito ver todas as oportunidades que ele teve de enriquecer, perdeu e todas as mulheres boas que teve na vida e também perdeu, porque ele merecia muito mais reconhecimento aqui no Brasil do que ele tem atualmente e isso é muito triste. Ele dirigiu centenas de filmes, fez TV, história em quadrinhos, toda a sorte de mídias e, puxa, poderia ser rico demais atualmente, mas o que ele queria mesmo era filmar mesmo, isso é louvável, mas as situações de pobreza que passou nos fazem perguntar até onde alguém pode ir em nome de um sonho.

É claro que Zé não foi o único fator que o prejudicou na vida, muitos se aproximaram dele por interesse e o fizeram gastar economias em projetos furados, o que aconteceu diversas vezes pelo fato de ele ser realmente ingênuo e de não ter um agente. Muitos, por outro lado, foram pessoas que realmente fizeram de um tudo por ele como Rubens Francisco Lucchetti (uma máquina de escrever roteiros!) e Nilce, terceira mulher de José que dedicou anos e anos de sua vida a ele mesmo tendo sido traída.

Reconhecimento de verdade ele teve mesmo na Europa e nos Estados Unidos, tendo conhecido pessoas importantes e famosas do cinema como Christopher Lee e Darren Aronofsky, este último inclusive se declarou fã do trabalho de Mojica.

Esta singela resenha é só a ponta do iceberg da vida extraordinária de José Mojica Marins! Falar mais do que isso seria transcrever o livro por inteiro, sendo que na verdade o bom mesmo é lê-lo. O texto é agradável e a leitura flui muito bem nas 666 páginas (!), recheadas de de imagens incríveis de bastidores de produção, pôsteres de filmes, atrações e eventos.

Menção especial à página 508 que me fez chorar pela descrição delicada e singela de uma pessoa importante na vida de Mojica: Dona Carmen, que apoiou e ajudou o filho de todas as formas que uma mãe pode fazer.

Além disso, em se tratando da parte física do livro, a DarkSide Books novamente deu um show com a capa soft touch, a imagem lindíssima de Zé do Caixão em sépia e com moldura dourada, além do acabamento interno que fez meus amigos que gostam de livros ficarem de queixo caído. É um livro para ter e ler de tempos em tempos, porque a vida de Mojica é uma lição para muita gente, em vários aspectos, sendo o principal, para mim: seja sempre quem você é e lute mesmo pelo que você quer, poucas pessoas tem este nível de determinação e de comprometimento com uma meta ou um sonho.

Minha última recomendação: vejam a minissérie Zé do Caixão, do Canal Space! Ela é dirigida por Vitor Mafra, tem Matheus Nachtergaele como Zé do Caixão e é baseada neste livro.

capa-ze-do-caixao-em-pe Capa sensacional do livro, capricho da DarkSide® Books

ze-do-caixao-maldito-darkside-books-livro-caveira-03 Matheus Nachtergaele personificando Zé do Caixão na série do Canal Space

Serviço

Título: Zé do Caixão – Maldito, a Biografia

Autor: André Barcinski e Ivan Finotti

Editora: DarkSide®

Edição: 2a

Idioma: Português

Especificações: 666 páginas, capa dura, edição de luxo e Limited

Dimensões: 16 x 23 cm

ISBN: 978-85-66636-78-9

Lançamento: Novembro de 2015

Preço: R$ 99,90



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